Foto: Praia de Itapeva, Torres/RS. Maurício da Rosa Ávila. Janeiro de 2022.
Vemos Deus com a cor de nossos olhos,
Mas ele é outro.
Há os que o buscam em templos.
Os que seguem liturgias.
Os que reviram livros sagrados.
Há também os que descreem.
Eu
Cato conchas na praia com meus filhos
E sei o infinito.
Pego a eternidade na mão
Por um breve tempo
E fico a admirar
O acaso bonito e inesperado
Das cores e formas.
Deus me espia
Por entre os buracos das pedras
Arisco como os caranguejos.
Voa, de repente, com as gaivotas
Quando uma ânsia de liberdade
Não cabe mais no chão.
Atira-se com a força das marés
Contra as falésias antigas
Cobrindo meu rosto de brisa salgada.
E deita suspiros mansos
Nas maretas que me cobrem os pés
De sossego e sal.
Volta para casa com os pescadores
Que dançam cansaços
Em barcos humildes
Vistos da margem.
- Vamos embora, papai?
- Vamos, filho.
Deus me acena com as ondas
E se joga do poente
Com o sol.
Fica para trás um cheiro de mar.
Fica também o sono meu e de meus filhos
Cheios de sonhos de criança;
Daqueles que se contam pela manhã ao acordar.
Há os que creem
E os que descreem.
Eu cato conchas com meus filhos na praia
E sei o infinito.